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Museu do Fado - O lugar onde habita a «Casa da Mariquinhas»

No Largo do Chafariz de Dentro, às portas do histórico e lisboeta bairro de Alfama, mora desde 1998, o Museu do Fado. Um espaço de memórias e encontros com a história e intérpretes da canção reconhecida em Novembro de 2011 como Património Imaterial da Humanidade (UNESCO). Último motivo de orgulho para um museu que, nos últimos dois anos, recebeu mais de 88 mil visitantes.

Texto: Ana Clara; Fotos - Antunes Amor | quarta-feira, 18 de Abril de 2012

Às dez da manhã a animação toma conta do Largo do Chafariz de Dentro, frente ao Tejo. Há esplanadas repletas de gente, turistas que procuram Alfama, os transeuntes seguem, em passo apressado, para mais um dia de trabalho. Nos bancos do largo, os mais velhos trocam dois dedos de conversa, enquanto os netos brincam debaixo das suas vistas.

Frente a este quadro de afã matinal posta-se o edifício Museu do Fado. A estrutura serviu noutros tempos à estação elevatória de águas. Hoje, com outra vocação, desperta-nos desde logo a atenção com uma faixa gigante exposta na fachada. As palavras relatam com orgulho o reconhecimento da UNESCO. Em Novembro de 2011 o Fado foi classificado como Património Imaterial da Humanidade.

Quem entra no espaço, rapidamente percebe que é lugar onde se conta a história do fado e dos seus protagonistas, desde os becos e vielas às tabernas e salões aristocráticos do século XIX, ao teatro de revista, passando pela rádio, gravação discográfica, cinema, televisão e pelas casas que acolheram este género musical. Um painel de fotografias de fadistas, que ocupa os três pisos do museu, dá as boas-vindas ao público. O visitante, já munido de áudio-guia (disponível em quatro línguas), prepara-se para percorrer toda a colecção. O aparelho permite seleccionar os fados à medida do gosto de cada visitante.

No caso vertente, é Rita Oliveira, técnica de comunicação do Museu do Fado, quem nos conduz nesta viagem que remonta ao século XIX, altura em que surgem os primeiros registos das origens do fado nos bairros populares de Lisboa, concretamente no ano de 1834.

Cantado pelos marinheiros, estivadores e prostitutas, nas ruas e vielas, nas tabernas, nos bordéis ou nos retiros. «Essa naturalidade ainda hoje permanece viva, o fado continua a ser uma canção simples, cantada por gente simples», diz a responsável.

«Temos aqui todo o universo em torno da canção nacional, desde os mestres guitarreiros aos donos das casas de fado, passando pelos investigadores, compositores e intérpretes. No fundo, todos os que contribuíram e constroem diariamente a história do fado», conta Rita Oliveira, que acrescenta que o museu é detentor de um acervo «único no mundo» e de «extrema importância no estudo do nosso património cultural e etnográfico».

A responsável lembra que houve na montagem da mostra «a preocupação em conduzir o visitante de forma cronológica», desde as origens até à actualidade. «E o fado tem várias origens prováveis e com várias influências, sejam as danças afro-brasileiras, fruto da emigração portuguesa à época, seja a música popular portuguesa, devido ao êxodo rural de muitos portugueses para a capital, seja pelas chamadas modinhas, as danças de salão tocadas nas cortes europeias no século XIX e que influenciaram igualmente Portugal», explica.

Um mundo de referências:
Ao cimo das escadas, no segundo andar do edifício, há três pontos multimédia, com um mapa da cidade, onde os visitantes têm acesso à informação dos vários bairros, com pontos de interesse histórico e casas de fado.

Prosseguimos viagem e abre-se um mundo de referências. Num dos corredores salta à vista a conhecida «Casa da Mariquinhas», uma peça em madeira construída por Alfredo Marceneiro, retractando o conhecido fado com o mesmo nome e celebrizado por aquele fadista. Rita Oliveira contextualiza a origem da peça, à escala de um para dez, dizendo que Marceneiro «construiu a casa com o objectivo de contar a história do fado».

Nas laterais da Casa inscreve-se a letra original da canção, assim como outras escritas posteriormente sobre a história desta castiça habitação em tamanho para bonecas. Uma maqueta repleta de detalhes, como a jarra sobre as colunas, a guitarra na sala, a imagem do Santo António. Nas traseiras da casa, espreitamos as famosas janelas tabuinhas. Pormenores cantados por Marceneiro num local imaginário que representa a vida num bordel e que conta a história de curiosas vizinhas, sempre prontas a espreitar pelas janelas.

No mesmo corredor, um novo encontro com as origens. Desta feita com o quadro «O Fado», pintado por José Malhoa, em 1910. Uma obra que revela as «raízes humildes» deste género musical.

«É a tela mais representativa da história do fado e os ingredientes que envolvem a criação da obra têm alguma graça. Quando José Malhoa decidiu pintar este quadro procurou pessoas que lhe podiam servir de modelo. E foi encontrá-las na Mouraria, na Rua do Capelão. Aí vivia o fadista Amâncio e a sua companheira, a Adelaide, conhecida por Adelaide da Facada (já que exibia no rosto uma cicatriz fruto de uma navalhada), mulher de má vida e boémia. José Malhoa passou 35 dias consecutivos na casa de Adelaide a pintar a obra. O Amâncio, fadista, mas também um pequeno marginal, era tantas vezes preso, que atrasou a obra de José Malhoa. Isto porque, volta e meia, o pintor tinha de ir libertar o fadista ao Governo Civil», explica Rita Oliveira.

O reconhecimento da obra chegou por via popular, visto que quando José Malhoa terminou a pintura, convidou os moradores da Mouraria a opinarem sobre a mesma. «Todo o bairro achou que o quadro representava o fado, dando-se, assim, a consagração popular. Só viria a ser exposto em Lisboa em 1917. Neste hiato de sete anos, houve uma polémica na intelectualidade da altura, por considerar o fado como tema não digno para constar da pintura portuguesa», afiança a responsável.

Uma obra que rompia com o cânone representando, para além da guitarra portuguesa nas mãos do Amâncio, o vinho sobre a mesa, o manjerico com o cravo e a quadra (um símbolo das festividades de Lisboa), a Adelaide a fumar, com uma pose de abandono e com a saia cheia de nódoas. O chão está sujo, repleto de beatas. Todos eles elementos que remetem para o ambiente boémio, muito ligado ao fado e aos bairros populares da capital.

Ao lado da obra um piano, que representa a unanimidade da sociedade portuguesa em torno do fado, já que no final do século XIX o fado começa a ser cantado nos salões da nobreza e da burguesia. Como é que dá este salto? «Os nobres faziam parte da sua vida nestes ambientes de boémia e bordéis. Desta forma o fado entra nos salões», explica Rita Oliveira.

Noutra sala do museu há uma exposição de vários exemplares de jornais no século XIX e XX, de divulgação do fado, como é o caso da revista «Guitarra de Portugal», «Trovas de Portugal», e o jornal «Os Ecos», exemplos.

Censura e profissionalização:
O período do Estado Novo em Portugal também não é esquecido na mostra do Museu do Fado. A Lei da Censura, implementada em 1927, trouxe ao mundo do fado algumas alterações, uma delas, a fiscalização do antigo regime aos fadistas que passaram a ser obrigados a ter carteira para poderem actuar.

É possível também ver alguns exemplares expostos e que mostram a censura dos repertórios, com temas proibidos na íntegra, outros permitidos, outros parcialmente censurados.

Para além de esta ser «a consequência mais óbvia» decorrente do período da censura, Rita Oliveira destaca uma outra relacionada com «quem e onde cantava. Até aos anos de 1930 cantava-se o fado em qualquer lado. A partir desse momento a legislação obrigou à existência de espaços licenciados para cantar o fado. E é por isto que nascem as casas de fado, tal como as conhecemos hoje, onde se vai jantar e cantar».

Numa outra sala, a mostra salta para registos filmados. Três monitores exibem imagens relativas ao teatro de revista, à rádio e à televisão e explicam como o fado, que, de acordo com Rita Oliveira, «nasce nos bairros tradicionais da cidade de Lisboa, se dissemina e começa a ser conhecido por todo o país».

«Ainda no século XIX o teatro de revista convidava fadistas para interpretarem papéis, fazendo pequenas actuações no momento em que se mudavam os cenários. Havia, nessa altura, muitas companhias itinerantes, que percorriam várias cidades do país. Isso ajudou muito a divulgar o fado por todo o território», realça.

A referência a Amália não podia também deixar de estar presente no espaço. Tida como «uma figura fundamental na história do fado», Amália, refere Rita Oliveira, «introduziu uma série de alterações do ponto de vista musical ao fado, que sempre se baseou em três estruturas módicas: fado menor, fado mouraria e o fado corrido. No fundo, ela introduz uma certa erudição ao fado, canta imensos poetas eruditos, com obra publicada, como David Mourão-Ferreira, Luís de Camões, Alexandre O’neil, José Régio, D. Dinis e Manuel Alegre», recorda.

Destaque ainda para duas outras salas que levam o visitante a complementos de toda a história do fado. Uma delas, altamente tecnológica, e onde são disponibilizados postos de consulta que permitem o acesso ao acervo do museu, nomeadamente, imagens, repertórios, registos áudio, biografia, programas de espectáculos e até pautas.

Por fim, encontramos a sala dos instrumentos, dedicada à guitarra e à viola, elementos indissociáveis da história do fado. «A guitarra portuguesa descende da inglesa, e aparece em Portugal no século XVII. Era um instrumento solista, sendo que os portugueses começam a usá-la para acompanhar a voz. Sabemos que os portugueses acrescentaram um par de cordas extra (a portuguesa tem 12 cordas), é um instrumento artesanal, feito à mão, construído por mestres guitarreiros».

A classificação do fado como Património Imaterial da Humanidade da UNESCO, a 27 de Novembro de 2011, foi «a consagração deste género musical como símbolo identitário da cidade de Lisboa e do país. E é também um selo de qualidade do ponto de vista turístico internacional, ao mesmo tempo que configura um desafio e uma responsabilidade para o museu para continuarmos a manter viva aquela que é também a alma de um povo», realça Rita Oliveira.

Tudo isto trouxe também mais turistas ao museu. Segundo Rita Oliveira, registou-se um aumento significativo de visitas de ano para ano. Dos dados disponibilizados pela responsável, em 2010, visitaram o Museu do Fado 33 mil pessoas, sendo que em 2011 esse número aumentou para 55 mil visitantes.

O Museu do Fado, tutelado pela EGEAC, empresa da Câmara de Lisboa responsável pela Gestão de Equipamentos e Animação Cultural, inclui ainda um núcleo museológico com uma exposição permanente, um espaço de exposições temporárias, um centro de documentação, uma loja de venda de artigos, um auditório, uma escola de formação (com aulas de guitarra portuguesa, de viola de fado, seminários para letristas e gabinetes de ensaio) e um espaço de restauração e cafetaria.

  
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