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Lisboa - Joaquim Lourenço mantém-se sapateiro, «mas é difícil»

Chegou jovem a Lisboa, mas já trabalhava como sapateiro. Aos 23 anos Joaquim Lourenço procurou na capital a oportunidade de se tornar mestre no seu ofício. Na Rua do Crucifixo encontrou o espaço profissional onde ainda hoje se mantém. De empregado, passou a patrão. Joaquim persiste num trabalho que lamenta ter impostos tão elevados para tão pouco serviço. «É difícil fazer vida disto actualmente», diz.

Sara Pelicano | sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Na entrada de um prédio antigo da Rua do Crucifixo há 47 anos que Joaquim Lourenço cuida dos sapatos alheios. «Vim para aqui como empregado. Acabei por ficar com o espaço. Como há um cabeleireiro aqui no andar de cima, vou tendo sempre movimento», conta o sapateiro.

O ofício aprendeu-o longe de Lisboa, em Penamacor, no distrito de Castelo Branco. Joaquim tinha, então, 12 anos. «Para não ter de ir para os trabalhos do campo, decidi começar a aprender o ofício de sapateiro», conta. Com as mãos, pequenas e calejadas, o sapateiro agarra um sapato e ajeita entre os dedos o martelo. Com genica e rapidez bate meia dúzia de pregos previamente encostados à sola. «Estes já se estavam a soltar», diz.

Aos 23 anos, Joaquim Lourenço deixou a terra natal e decide tentar a sorte na capital, terra de oportunidades na década de 1960. Queria tornar-se mestre neste ofício. «Vim logo para este cantinho aqui», afirma. No número 50 da Rua do Crucifixo, em plena baixa pombalina, chegaram a estar quatro funcionários, três engraxadores e um sapateiro. «Hoje estou só eu, e engraxar já não faço».

O quotidiano profissional de Joaquim faz-se rodeado por um caos «organizado» de sapatos de todas as formas e feitios. Já passaram, ou aguardam, o momento em que chegam às mãos experientes do sapateiro. Joaquim socorre-se no seu ofício de um sem número de apetrechos. Há martelos para diversas funções, caixas repletas com diferentes tamanhos de pregos, torniquetes. Nestes, Joaquim prende os sapatos quando necessita das duas mãos para os arranjar. No pequeno espaço onde trabalha há ainda escovas para diversos fins e algumas graxas para um retoque final na obra acabada.

Joaquim lamenta que neste ofício tão antigo «os impostos sejam tão elevados. Cada vez se consertam menos sapatos mas os impostos não param de aumentar. É difícil fazer vida disto actualmente».

Hoje, o trabalho de sapateiro está muito limitado ao arranjo dos sapatos. Colocam-se capas, meias solas, arranja-se a alma do sapato (um pedaço de metal que une o salto à sola). Contudo, os sapateiros começaram por ser os profissionais que faziam os sapatos. Há registos que documentam que entre 3200 e 3100 a.C., no Egipto já se faziam sandálias de couro para as classes sociais mais altas. Mia tarde, em Roma, os sapatos distinguiam as classes sociais. Os soldados das legiões usavam botas de cano curto, as mulheres calçavam de branco, vermelho, verde ou amarelo. Os senadores tinham sapatos castanhos atados às pernas.

Séculos mais tarde, a industrialização veio retirar força ao ofício artesanal de sapateiro. No século XIX apareceram os primeiros sapatos confeccionados à máquina. O calçado chegou aos pés da maioria das populações para se tornar um acessório de moda, produzido em grandes quantidades. O ofício do sapateiro perdeu parte da sua importância.

Joaquim Lourenço acrescenta a este rol propício à extinção outro problema: a pouca vontade de os jovens aprenderem. «Os jovens de hoje também não se querem sujeitar a trabalhar por pouco dinheiro e com sacrifícios. Ainda não sabem nada e já querem todas as regalias de trabalhador. É difícil de os ensinar assim. Ninguém se interessa por isto, demora a aprender».


 

  

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