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São Pedro do Sul - O sapateiro da Rua Direita

Fernando Figueiredo é mestre na arte de trazer nova vida aos sapatos há mais de vinte anos. Na Rua Direita, em São Pedro do Sul, poucos são os passantes. O sapateiro continua a fazer alguns arranjos, mas cada vez menos. A industrialização do sapato, colocando-o no mercado a preços baixos, «veio dar cabo do negócio», conta-nos.

Sara Pelicano | quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

A rua Direita em São Pedro do Sul, que de direita tem muito pouco, já foi mais movimentada. Situada no centro histórico da cidade beirã, a artéria mantêm-se viva com algum comércio e alguns habitantes. Fernando Figueiredo já teve mais movimento na sua oficina de sapateiro. Ainda assim, nos minutos que dura a nossa visita ao pequeno espaço de trabalho, entram e saem seis clientes. «Hoje já há poucos consertos, mas ainda se colocam algumas capas, meias solas», comenta Fernando. «Os sapatos baratos vieram dar cabo do negócio», acrescenta.

As mãos enegrecidas pelo uso regular de graxas, óleos para afinar as máquinas, já estão bem treinadas no fender do sapato. «O fender é separar a sola em duas partes. Uma é cosida à pele a outra é depois colada por cima. Unem-se novamente as duas partes da sola e deste modo não se vê o ponto da costura», explica Fernando Figueiredo, «sapateiro há mais de vinte anos».

Na pequena loja da Rua Direita, cumulam-se sapatos em prateleiras que ocupam as paredes de alto a baixo. Na bancada de trabalho, Fernando espalha pedaços de couro, pregos, martelos, colas. É ali que repara o calçado mergulhado em silêncio, quebrado apenas pela passagem de um ou outro carro na rua calcetada.

Aos 14 anos, «sem possibilidade de continuar os estudos», começou a trabalhar na oficina de sapateiro onde ainda hoje exerce a profissão. «Começa-se por endireitar os pregos retirados dos sapatos velhos. Limpa-se a oficina e deita-se fora o lixo», comenta, enquanto entrega os sapatos a uma cliente.

«Veio colocar umas solas», diz-nos. E retoma o tema anterior, a aprendizagem: «Aos poucos começamos a coser, a engraxar. Para mim, o que mais custa mesmo é trocar saltos a botas de senhora de cano alto sem fecho», conclui ajeitando a bata cinzenta que lhe protege a roupa dos produtos «sujos» que usa na sua profissão.

O ofício de sapateiro é quase tão antigo quando a existência do Homem e o uso do calçado. Aos poucos foi evoluindo e as pequenas oficinas tornam-se fábricas de calçado. Numa época em que o sapato está altamente industrializado, chegando às prateleiras das lojas a baixos custos, Fernando diz «que cada vez compensa menos arranjar sapatos». No entanto, afiança, «ainda há quem goste de comprar bom e, nesse caso, vale a pena consertar os sapatos».

No espaço pequeno onde aprendeu o ofício fez-se sapateiro profissional. Tornou-se proprietário e entre máquinas de coser, suportes para bater o calçado para pregar bem pregos e assegurar boa colagem, e máquinas de engraxar, Fernando continua a manter-se num ofício antigo numa rua quase deserta.
 

  
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