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Monte Frio - No cimo da serra há saudade nas palavras de Saudade

Pelas estradas estreitas da Serra do Açor, no concelho de Arganil, visitamos uma das «Aldeias de Memória». Desta vez, a paragem é Monte Frio. Aqui, o xisto foi sendo substituído pela cal branca. Este elemento sobressai no casario que se avista ao longe. Em torno, na serra, a paisagem completa-se com pequenos socalcos. Na aldeia, marcada pela interioridade, «falta emprego» e actividades que «animem a terra».

Ana Clara | segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

É no coreto da aldeia de Monte Frio, mesmo no cimo da Serra do Açor, que fazemos a primeira paragem. Na localidade do concelho de Arganil, o mote para a conversa é dado por Arlindo da Costa, 78 anos. O nosso interlocutor senta-se a aproveitar «o sol e o descanso depois de almoço. «Venham para aqui, vão ver que vão gostar da vista», convida.

E tem razão. Do coreto, situado no Largo da Comissão de Melhoramentos da aldeia, a serra do Açor mostra-se na sua plenitude, avistando-se lá ao fundo, entre vales e montes, as aldeias de Pardieiros, Luadas e Pai das Donas.

O local não pode ser mais apropriado para conhecermos as gentes de Monte Frio - aldeia que integra o projecto 'Aldeias da Memória' e que visa recuperar as memórias de um conjunto de localidades do concelho de Arganil -, já que este coreto, feito pelo povo, é o palco privilegiado das festas anuais, em Agosto, servindo também para a actuação dos ranchos noutras festividades. «Além disso, é o ponto de encontro de toda a aldeia e dá para esbater a solidão dos dias», acrescenta Arlindo.

Enquanto contemplamos a paisagem, Arlindo aproveita para nos contar a história dos nomes de Monte Frio e da aldeia vizinha de Benfeita. Reza a lenda, passada de geração em geração, que «no pastoreio do gado, no cimo da serra, os pastores do local onde hoje é Benfeita, preferiam a zona de Monte Frio. Sendo terras sempre frias, quando regressavam a Benfeita, os que tinham ficado perguntavam: «Então como está lá o tempo?». «Muito frio», retorquiam. E a resposta era imediata: «Bienfecta» (bem feita).

 Arlindo nasceu na Vila das Neves, em São Tomé e Príncipe, e veio para Monte Frio aos três anos de idade, com os pais. É um verdadeiro contador de histórias e dos poucos que anima a aldeia. Toca «gaita de beiços» e faz parte do Rancho Folclórico de Flores de Alba – freguesia vizinha – onde canta e toca, «porque dançar, as pernas já não deixam».

Cantorias:
E entre cantorias do rancho, há uma que Arlindo aprecia particularmente. Trata-se do Hino de Monte Frio. Pedimos-lhe que nos cante um bocadinho. Meio envergonhado, e a medo, lá começa a cantarolar: «Monte Frio terra bela, tens a capela, ao fundo do povo. Só tu és do meu agrado, e tens ao lado, chafariz novo».

«Não nasci cá, mas sem isto não vivo», assume, recordando ao mesmo tempo o percurso de vida, «nem sempre fácil», que o levou para Lisboa aos 16 anos, onde, como diz, «fez de tudo». «Trabalhei em casas de móveis, aprendi a ser colchoeiro e, mais tarde, quando regressei a Monte Frio, abri uma casa de colchões, com a experiência ganha na cidade», conta.

Como o negócio não correu bem, viu-se obrigado a regressar à capital para sustentar os dois filhos, onde conseguiu arranjar emprego como taxista.

A perda do pai foi um marco na sua vida. Tinha 11 anos. Foi com ele que aprendeu o ofício de fazer brochas. «Sabe o que são brochas?», pergunta, não esperando pela resposta, e dando a explicação imediata: «é aquilo que se coloca nos sapatos para as socas. O meu pai era ferreiro e fazia-as na perfeição. Depois, quando morreu, fiquei aos cuidados da minha “segunda mãe” e não foi fácil, porque nessa altura vivíamos apenas do campo e éramos muito pobres». A mãe biológica, faz questão de explicar, ficou em São Tomé.

Hoje, reformado, ocupa os dias na conversa, «possível», com os restantes habitantes de Monte Frio. «Aqui já não há nada, durante o ano inteiro isto é um deserto. Só anima e se enche de gente em Agosto, por altura da festa da aldeia», adianta.

Recorda, porém, outros tempos «bem piores, em que as estradas eram de terra, em que não havia água nem luz, e onde se vivia unicamente do campo».

Monte Frio preserva locais que, noutros tempos, eram imprescindíveis na terra. Entre eles estão, por exemplo, os lavadouros, que serviram para as pessoas lavarem a roupa. Hoje, alguns deles ainda são utilizados, sendo também uma boa fonte de água para beber e curar doenças, como alguns habitantes ainda acreditam.

Apesar do isolamento e de não existir qualquer tipo de actividade económica na aldeia, os habitantes ainda contam com as visitas do padeiro, do carniceiro e do peixeiro, a dias específicos da semana.

As saudades de Saudade:
Quem nos fala do actual abastecimento alimentar de Monte Frio é Saudade Ribeiro. Aos 73 anos, esta mulher, «que teve uma vida difícil de trabalho», recua aos tempos de menina: «Fiz cá a quarta classe e a minha mãe mandou-me para Lisboa, para prosseguir os estudos. Mas eu não dava para aquilo. Só lá estive um ano».

Regressou a Monte Frio e casou aos 19 anos com «o rapaz por quem se enamorou que veio trabalhar para a aldeia», de quem teve dois filhos.

Mais tarde abriu uma loja, «onde vendia de tudo», conta. Saudade emociona-se. As lágrimas enchem-lhe o rosto. A loja, que teve a porta aberta durante 44 anos, e que fechou há cinco, era «o abastecimento da terra. Gosto muito disto. Mas tive de fechar, um pouco por ‘imposição’ dos meus filhos, porque os anos já pesavam e para mim, sozinha, era muita coisa».

Hoje, passa metade do ano em Monte Frio e outra metade em casa dos dois filhos, em Arganil e em Tábua. «Venho e Abril e estou cá até Outubro. Ainda compro três ou quatro galinhas para ter uns ovos e semeio pimentos, tomates, cebolas e umas batatas», refere, de sorriso no rosto.

O seu nome faz jus ao que sente quando tem de partir quando chega o Inverno. «Por mim ficava cá o ano todo, mas os meus filhos ficam preocupados», reconhece.

Quando lhe perguntamos como era a vida da aldeia há 50 anos, Saudade responde em tom de nostalgia e, ao mesmo tempo, de tristeza. «Nessa altura era tudo muito diferente. As ruas eram de terra batida, não havia fontanários, como hoje, nem água nem luz». A luz eléctrica e o calcetamento de granito do largo e da rua principal só chegaram à aldeia em 1968.

E prossegue, dizendo, «que havia mais gente, as pessoas viviam da agricultura, não havia reformas e as trabalhavam até à morte». Até aos dias de hoje, a agricultura é a principal actividade económica em Monte Frio, apesar de na década de 80 do século XX ter ali existido uma pequena indústria ligada à floresta, que produzia colheres de pau e alguns seringueiros que extraíam a resina dos pinheiros.

 A desertificação é uma marca desta aldeia tal como das restantes sete que compõem o projecto Aldeias de Memória, iniciativa que surgiu para dinamizar estes lugares isolados do concelho de Arganil. Hoje, de uma população com cerca de 48 habitantes, apenas vivem em Monte Frio cinco jovens. Por se tratar de uma zona rural e com população idosa, na sua maioria, o número de habitantes tem vindo a diminuir drasticamente nos últimos anos. 

Teresa, a resistente:
«Partiram todos em busca de melhores condições de vida e de trabalho. O que ficavam cá a fazer?», questiona Teresa Martinho, a resistente, que aos 27 anos vive e trabalha em Monte Frio.

O trabalho na Casa de Convívio, no Largo da Comissão de Melhoramentos de Monte Frio, que também serve de café, foi a ocupação que conseguiu arranjar depois de em Lisboa e em Arganil ter perdido os empregos. Está na Casa da terra há dois anos e não se queixa. «No meu caso, foram as contingências da vida que me obrigaram a regressar. Não é fácil. A vida por aqui não é melhor. Trabalho todos os dias, não folgo nunca mas, apesar disso, gosto de cá estar. Pelo menos tenho trabalho e sempre é mais económico».

O pior, conta Teresa, «é não haver nada na aldeia. Não há um supermercado, uma farmácia, uma única loja. Nem médico temos. Se precisarmos de um hospital está a 25 quilómetros de distância», lamenta.

Admite que, por vezes, tem saudades da «agitação» das cidades por onde passou. E quando lhe perguntamos porque não tenta de novo a vida noutro local, responde prontamente: «É difícil sonhar nos tempos que vivemos. Vamos tendo o necessário para viver no dia-a-dia, e gostava de sair, ter um trabalho melhor e uma vida mais desafogada. Mas o desemprego assusta. Pelo menos aqui não se ganha tanto, mas vive-se melhor e tira-se da terra o sustento», conclui.
 

  
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