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Montalegre - Viagem à «Terra Fria»

Em Trás-os-Montes traçamos um roteiro pelo concelho de Montalegre. No Planalto Barrosão, frio e longe dos habituais roteiros turístico, o encontro faz-se com as marcas perenes da paisagem humana e natural.

Jorge Andrade | terça-feira, 1 de Novembro de 2011

A Serra da Cabreira ganha contornos, assome a paisagem, junta rebanhos de outras serranias que inventam curvas de estrada por onde iremos passar. O destino é o concelho de Montalegre, no noroeste do Distrito de Vila Real. A promessa: um roteiro misto de real e imaginário no planalto Barrosão. Partir ao encontro do Portugal para lá dos montes parece, aqui, significar partir para um país que conserva um bastidor impoluto e primordial. Na paisagem, o que de humano se impõe surge, à distância, em povoados cabendo em vales sombrios e cumeadas.

Da estrada lançamos olhares ao traçado sinuoso dos rios Cavado e do Rabagão. Mais uns quantos quilómetros de caminho para termos Montalegre aflorando a paisagem, sede do segundo maior concelho em área do país (800 km2). Um ninho de casario de onde desponta a torre do castelo assinalando o núcleo original, o burgo entre muralhas graníticas. No centro da localidade, sobe-se a Rua Direita, assome-se à fortaleza, avista-se «Terra Fria» a partir dos miradouros da Corujeira e de Santa Catarina. À entrada de Montalegre uma homenagem à força e ao comunitarismo. A estátua da «Chega de Bois» apesar de transbordar músculo em bronze; também nos recorda a fragilidade das tradições. Hoje o boi do povo, o macho fertilizador a quem, de tempos a tempos, se pedia luta com o macho de outra aldeia é quase memória. Outrora, em campo aberto, os dois touros digladiavam. O troféu, para além da honra da aldeia, era domínio sobre a manada e cobrição das fêmeas. 

Paredes do Rio – Artes e ofícios ainda vivem
Deixa-se Montalegre e percebe-se como a escala muda nas aldeias (são 136) que povoam um concelho com 35 freguesias. A sede de município parece-nos, então, uma urbe desmesurada. Primeira paragem em Paredes do Rio. O marco à beira da estrada aponta mais de mil metros de altitude o que se percebe nos arrepios de vento frio que agitam pequenos bosques de carvalhal. No largo monta-se a «Rota dos Artesãos» e convida-se os visitantes a participar. Trocam-se algumas palavras com os circunstantes. A tecedeira, a dobadeira, o ferreiro, o escultor, o carpinteiro, o croceiro e soqueiro, o pedreiro, a molhelheira, o padeiro; ali estão, falando e laborando nas artes e ofícios locais.

Ainda em Paredes do Rio um encontro com meios de subsistência antigos. A Associação Cultural e Social de Paredes do Rio tem-se esforçado na recuperação de moinhos hidráulicos e tornou a sua presença numa rota. Junta-lhe o forno comunitário onde, hoje, recuperando tradições, se volta a cozer o pão. A pretexto dos moinhos, o cultivo do milho e do centeio, as tarefas de sementeira, de colheita, de armazenamento, de secagem e moagem do grão; a preparação da farinha e a cozedura do pão. Este, a par com a carne de porco, foi pilar de subsistência na região.

Pitões de Júnias – marca do comunitarismo
De paredes do Rio para a aldeia comunitária de Pitões de Júnias, no planalto da Mourela. Um encontro com histórias de partilha em torno do forno e do moinho do povo, das propriedades, dos baldios, dos lameiros e do gado. A terra é agreste, o ar vivifica, embora lance sopros gélidos. Em Pitões de Júnias o casario amontoa-se e faz frente aos elementos. Em torno do pequeno núcleo urbano, com pouco mais de duzentos habitantes, foram-se retalhando hortas e lameiros. Para Norte, a Serra do Gerês, limiar de fronteira. Espanha está mesmo ali ao lado. Este é um território de raia; do outro lado, a Galiza e uma vizinhança com séculos de histórias que misturam namoros, desavenças, guerras (as invasões napoleónicas passaram por aqui), contrabando e muitos «pulos» migratórios, especialmente nas décadas de 60 e 70 do século XX.

De Pitões de Júnias ao Mosteiro de Santa Maria de Júnias é um lance rápido de caminho. A paisagem vive em frescura. Há regatos que se juntam, tecendo ribeiros robustos. Há bosques de salgueiros e freixos, há o voo nervoso de passaritos. Por fim, onde termina o caminho em pedra, o vale entrega-nos o seu tesouro. O mosteiro é Património Nacional, uma estrutura com quase nove séculos. As ruínas revelam-nos a fachada românica da igreja, o pórtico, as arcadas e claustros, a biblioteca, o dormitório, o refeitório.

Albufeiras - depois das águas muito mudou
A direcção é Padornelos no sopé da Serra do Larouco, a terceira mais alta de Portugal, com 1500 metros. A paisagem corre rápida. O tempo na viagem de automóvel é diferente do tempo que se percebe em torno. Os muros de pedra solta não são deste tempo e, não obstante, vivem-no. Conjuram uma paisagem de pequena propriedade. Os Lameiros, pastos naturais, recordam-nos o gado de raça Barrosã, património genético e cultural do Barroso, apurado durante séculos pelos criadores.

Hoje a besta Barrosã viu-se ultrapassada pelo gado Maronês, mais rústico e resistente ao trabalho e pelo Mirandês, mais corpulento e possante.
Finalmente Padornelos. A aldeia encosta-se à serra. Merece atenção o forno, o que resta da casa onde viveu Ferreira de Castro, A Casa de Padornelos oferece uma incursão na genuína cozinha Barrosã, às carnes fumegantes do cozido, ao cabrito assado no forno.

Finalmente, a última etapa, até aos limites do concelho para, depois, saltar mundo fora. Antes, porém, a visita a uma das maiores transformações que a paisagem local sofreu. A obra começou em 1950 com o intuito de domar os rios com a construção das barragens como a do Alto Rabagão, Alto Cávado, Paradela, Venda-Nova, Salamonde. Aos poucos as águas subiram, deram novos contornos à região, inundaram campos agrícolas, abeiraram povoações como Vilarinho de Negrões que nunca se supôs nas proximidades de um pequeno mar.



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