Imprimir conteúdo  imprimir   
Enviar página por email  enviar   

Ciclo do Linho - Da planta à beira-rio ao delicado pano

Trajadas a rigor as mulheres da aldeia da Várzea, a pouco mais de 18 quilómetros de Viseu, mostram na capital de distrito o trabalho que as ocupa. O ciclo do linho contado pelos mais velhos, com a atenção de uma jovem que, também ela, traja a rigor por fazer parte do Grupo do Ciclo do Linho da Várzea.

Sara Pelicano | sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

O local é uma barraquinha, localizada na Praça do Rossio em Viseu a propósito da I Feira de Tradições que aconteceu na cidade beirã, em Julho, característica de uma feira, com uma janela grande. No parapeito, ou no improvisado balcão, uma pequena taça. Dentro milhares de sementes, escuras, quase tão pequenas como um grão de açúcar. «São linhaças; as sementes do linho». Conhecemos assim, Laura Filipa, na casa dos 70 anos, falando com entusiasmo do Grupo do Ciclo do Linho da Várzea. «Também cantamos as modas, sempre ligadas aos trabalhos do linho», afirma. É, alias, a cantar que o grupo nasceu corria o ano de 1963, «e fomos convidados para actuar na inauguração», dizem em uníssono os outros membros do grupo que, entretanto, se aproximam largando os afazeres. «Mas o linho já vem detrás. Os avós dos avós já faziam o linho», esclarece Laura, ajeitando o lenço que leva enrolado na cabeça.

Começa, então, a explicação: quando o linho já está grande, depois de cerca de cem dias a crescer nas margens do rio, colhe-se e coloca-se em pequenos molhos. «Assim, vê», mostra Emília De Jesus Bernardino, um outro membro, orgulhoso, do grupo de Várzea, aldeia do distrito de Viseu. Traz nas mãos um molho de linho, ainda com pequenas bolinhas secas nas pontas da fibra. «Isto [refere-se às bolinhas] é a baganha, onde está a semente», diz Emília.

Em frente à barraquinha de exposição, um pano no chão delimita o local de trabalho. Em cima do grande pedaço de tecido estão os instrumentos de madeira, intervenientes fundamentais do processo. Começa aqui, no ripanço, uma tábua com compridos pregos espetados lado a lado numa das extremidades. Passando as pontas do linho, onde estão as baganhas, suavemente entre os dentes improvisados do ripanço, estes soltam-se e caem no chão, ficando apenas a fibra do linho.
«Nesta fase o linho lava-se no rio. Seca-se bem ao Sol», explica Laura Filipe. Emília, entretanto, ocupa outra fase do processo: o malhar. Um dos braços de Emília ganha energia e força para bater no linho. Pancadas certas que separam a parte lenhosa da parte têxtil.

Um ou outro curioso aproxima-se do improvisado balcão. Sara Gonçalves, na casa dos 20 anos, é um dos membros mais jovens do grupo que conta com um total de 25 pessoas. A jovem mostra o linho já no seu produto final, como artigos de decoração. «As pessoas gostam, mas acham caro. Isto dá muito trabalho e as pessoas não reconhecem», comenta Laura, voltando a lançar mãos à cabeça, arranjando o lenço que teima em contrariar os jeitos da sua portadora. «Aqui, só falta o tear, de onde saem as peças finais», comenta. «Com o fuso fazemos o fio, que passa para a dobadoura, onde se fazem os novelos». No entretanto deste processo o linho é cozido com cinza e ervas aromáticas para ficar branco.

«Do tear, vai para ali», diz apontando para junto de Sara. «Dá muito trabalho, mas ficam coisas muito bonitas», remata Laura.


mais fotografia, vídeo e áudio
  • Ciclo do Linho da Várzea
    Foto
  • Ciclo do Linho da Várzea
    Foto
  • Ciclo do Linho da Várzea
    Foto
  • Ciclo do Linho da Várzea
    Foto
  • Ciclo do Linho da Várzea
    Foto
  • Ciclo do Linho da Várzea
    Foto
  • Ciclo do Linho da Várzea
    Foto
  
Comentários Comentários (0)
Não existem comentários
Newsletter 
Fique mais próximo do Café Portugal
nome:
email: