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Lisboa - Profissão de engraxador ganha novo fôlego

A profissão de engraxador ganhou na capital um novo fôlego. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa formou 14 engraxadores que, agora, praticam a sua actividade nas artérias. Por um lado recupera-se um ofício antigo, por outro desperta-se o espírito empreendedor em pessoas atingidas pelo desemprego. O projecto «Tradição - Valorização de Profissões Tradicionais» é para continuar, expandindo a outras profissões e cidades.

Sara Pelicano | quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

«Há cinco anos decidi ser engraxador». «É preciso alguma sensibilidade e gosto». «Os engraxadores não são uns coitadinhos, são profissionais como outros». «Tento saber um pouco de tudo para manter a conversa com os clientes». Estas são frases soltas que António Pina vai proferindo enquanto engraxa os sapatos de um cliente. António gosta de minúcia no que faz. «Tenho sempre tudo arrumado. De um lado da caixa de engraxador, tenho as escovas arrumadas pelas cores. Cada escova para cada cor de sapato. Do outro lado, as graxas. Assim, não tenho de andar a procurar os materiais quando o cliente aqui se senta. Dá mau aspecto não saber onde tenho as coisas», diz.

Mãos mecânicas, elas próprias cheias de graxa, limpam o sapato, preparando-o para receber o tratamento personalizado de António Pina. «Engraxar significa tratar o sapato. Passa-se um creme para alimentar a pele, depois a graxa que cria uma camada de impermeabilização. Por fim, temos de polir, algo que faço com um pedaço de flanela». A técnica é-nos contada por este engraxador de 52 anos.

António Pina tornou-se engraxador há cinco anos. Era vendedor da revista Cais. A associação de solidariedade decidiu reavivar tradições antigas como a de engraxador e António Pina apostou nesta iniciativa, tornando-se o profissional que embeleza sapatos alheios. «Mas não tinha muitos clientes no local onde me colocaram. Aquele projecto acabou mas eu decidi continuar. Tornei-me engraxador por conta própria», explica.

O trabalho está terminado. António aguarda o próximo cliente. Há cinco anos, escolheu o Largo do Rato, em Lisboa, para iniciar a sua nova profissão. Junto à Pastelaria 1800, colocou a sua caixa de engraxador e começou a aperfeiçoar-se. «Falei com um engraxador, que já está reformado, que me deu as primeiras indicações. O resto fui aprendendo por mim».

«Sou muito exigente. O trabalho tem de ficar bem feito porque o cliente vai sair daqui e vai mostrar o meu trabalho a outros. Não posso permitir que fique mal feito. Por isso, há coisas que me recuso a fazer no pé do cliente. Por exemplo, as botas de senhora, com aqueles canos altos. Peço sempre que as deixem aqui comigo e depois passam a buscar. Não faço no pé da cliente porque para ficar bem feito não pode estar calçada».

Engraxadores empreendedores:
Há alguns meses, António Pina foi contactado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. A instituição queria reavivar a profissão do engraxador. Uma iniciativa que surgia depois do ISCTE, uma das entidades fundadoras do projecto, realizar dois estudos científicos sobre esta profissão. A santa Casa da Misericórdia passou a funcionar a entidade que desenvolve, gere e financia a iniciativa.

António acabou por formar algumas pessoas. «O recuperar da actividade de engraxador integra-se num projecto mais amplo designado de ‘Tradição - Valorização de Profissões Tradicionais’. Uma iniciativa que pretende diminuir o desemprego de longa duração através da recuperação de profissões tradicionais. Promove, ainda, o empreendedorismo, recorrendo a uma metodologia inovadora baseada na efectiva autonomização e cooperação com as pessoas apoiadas», adianta o coordenador do projecto Tito Albernaz.

No total foram 14 os engraxadores em formação. Neste momento estão espalhados pela cidade, homenageando uma profissão antiga. Encontraram, também, um novo sentido para as suas vidas. Vítor Lima, tal como outros que ingressaram na iniciativa, estava desempregado. Aos 56 anos e nas actuais circunstâncias económicas do país, sabia que o futuro era pouco risonho. «Surgiu esta oportunidade de ter formação através da Cais (responsável pela dinamização da interacção entre os mestres engraxadores e os novos profissionais). Entrei um pouco confuso sem saber o que ia dar. Após cinco meses de formação, pensei e achei que poderia ser esta a minha luz ao fundo do túnel. Hoje estou no cruzamento da Avenida dos Estados Unidos da América com a Avenida de Roma, mais precisamente na porta da pastelaria Vá Vá».

Vítor Lima explica que ainda está a «fazer» a sua clientela, mas que esta oportunidade é para agarrar com «unhas e dentes».
Além da formação de novos engraxadores, a iniciativa incluía a criação de uma imagem e de uma marca comum a todos os engraxadores. Mais uma vez, António Pina esteve disponível para ajudar. Reuniu-se com alunos do IADE - Escola Superior de Design, Marketing e Publicidade (parceira do projecto) para fazer uma demonstração do trabalho. «Os alunos desenharam depois vários tipos de caixa de engraxadores, mantendo algumas características mais tradicionais, mas também inovando», explica Tito Albernaz.

As novas caixas «pretendem marcar quem passa na rua e representam um grupo de «Engraxadores Tradição». «As caixas trazem maior conforto ao engraxador e aos seus clientes», conta Tito.

A caixa de madeira faz lembrar a sela de um cavalo. Almofada por cima, onde o engraxador se senta, oca por dentro, servindo o espaço como arrumação. Nos cantos foi decorada com floreados feitos de metal. «Este era um dos aspectos comuns antigamente, quando havia muitas serralharias na cidade», comenta Tito Albernaz.

A rematar a caixa está um suporte em metal semelhante à sola de um sapato. É aqui que o cliente coloca o pé quando se senta na cadeira alta. O cenário, característico das imagens que associamos a histórias antigas, fica completo com um chapéu-de-sol preto.

António Pina revela-se satisfeito com as inovações. Chega mais um cliente. A média diária é difícil de fazer, mas ronda as dez graxas. Os clientes são, maioritariamente, homens mais velhos. Mas António assegura que jovens acima dos 20 anos já começam a ter o hábito de se sentar na cadeira do engraxador.

Vítor Lima acrescenta: «e as mulheres também. Ainda não têm muito o hábito, mas eu no pouco tempo disto já consegui atender duas».

E António diz: «há ainda os estrangeiros. Ficam sempre surpreendidos com o que fazemos. Tenho entre os clientes habituais um casal alemão. Todos os anos vêm a Portugal e passam por aqui».

O projecto «Tradição - Valorização de Profissões Tradicionais» é para continuar. Em estudo estão outros ofícios. «Para os engraxadores criamos um código de conduta, métodos de actuação. Estamos a fazer o mesmo para outros ofícios. O de cauteleiro certamente vai avançar ainda em 2012. Queremos também continuar com os engraxadores, mas possivelmente noutras cidades do país», desenvolve Tito Albernaz.

Todos os dias, António Pina recolhe o seu material. «Quando daqui saio, quase sempre pelas 20h00, não fica aqui nada. Na manhã seguinte regresso».
 

  
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