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Memoria Media - Escutar Portugal e difundir na Internet

Receituário antigo confeccionado e relatado pelos que há muito aprenderam, histórias do campo e do mar, lendas e superstições. Este património oral está registado em vídeo no projecto Memoria Media - e-Museu de Património Imaterial. Mostrar ao mundo estas tradições, valorizá-las e colocá-las ao serviço dos mais novos para que as possam reinventar, são objectivos da iniciativa criada em 2006.

Sara Pelicano | quarta-feira, 25 de Abril de 2012

A Agência das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) refere as tradições e expressões orais como «importantes formas de manter viva uma cultura». Acrescenta ainda que «devem ser transmitidas de pessoa para pessoa» sendo esta uma boa forma de «juntar os mais velhos com os mais novos».

Princípios de uma organização internacional vincados no projecto Memória Media - e-Museu de Património Imaterial. Em 2006, a pedido da Biblioteca Municipal de Beja, José Barbieri, gravou os saberes orais de uma localidade do concelho alentejano. «Este foi o arranque do projecto. A ideia era guardar em CD, mas recolhemos tantas horas de histórias que as duas horas que um CD permite gravar não eram suficientes», conta o coordenador do projecto.

A Internet apresentou-se, então, como alternativa ao CD. Desta forma nascia o site com o mesmo nome da iniciativa. «Na plataforma Web as horas podem ser infinitas e permite criar novas audiências para estas vozes. As pessoas foco das gravações têm muito para dar e nós muito a aprender com elas», acrescenta José Barbieri.

Passaram-se cinco anos sobre o arranque da iniciativa e nela já trabalham a tempo inteiro quatro pessoas. «Criámos uma cooperativa cultural. Somos apoiados pelo Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da Universidade Nova de Lisboa, além de sermos contratados por outras instituições para fazer recolha em vídeo das suas tradições», explica.

Um percurso que tem levado os promotores desta iniciativa a percorrer Portugal de Norte a Sul, incluindo as ilhas. Em Sendim, Miranda do Douro, conversaram com Miguel Moreira que ensina a criar e a montar um burro. Em Peniche, gravaram as histórias de João «Valintum» Farto que fala sobre a vida dura ligada ao mar. Nas Beiras, sentaram-se com a Dona Marcolina e observaram os gestos milenares associados à confecção do pão. Isto, entre centenas de outros exemplos.

José Barbieri considera que «cada vez mais se dá importância ao património das localidades». O Memoria Media regista em vídeo as histórias que cada habitante tem para contar e coloca-os no site. «O nosso objectivo é dar audiência, dar visibilidade ao vasto património português».

Receitas antigas, contos e lenga-lengas, histórias do mar e da terra são alguns dos temas já reunidos pela Memoria Media, que segundo José Barbieri é um projecto para «expor estes saberes locais a um nível global, permitindo que as pessoas possam usar essa memória como quiserem». 

As histórias são contadas pelos habitantes da região onde o património visado se insere. São quase sempre pessoas de idade avançada que ainda viveram a histórias que contam. Noutros casos sã já relatos de gerações mais novas a quem ainda passaram a oralidade cultural.

No Memoria Media há espaço para os mais velhos, mas também para os mais novos. As novas gerações começam a debruçar-se sobre as tradições dando-lhes novos caminhos. Assegura-se assim a continuação de uma cultura que pode contribuir para o crescimento da sociedade.

José Barbieri acredita que «se enchermos a comunicação social com este tipo de saberes pode ser que estejamos a contribuir para que os agentes económicos acordem para esta questão e percebam que há aqui uma mais-valia real», mais acrescentado: «a nossa função é continuar a divulgar e a mostrar que isto existe e deste modo a acarinhar estas pessoas e novas gerações que começam a beber nestas tradições e a transformá-las. E contamos que isso ajude a enriquecer o nosso tecido social, que volte a dar profundidade, e que aumente a capacidade de soluções para os problemas da sociedade portuguesa».

 

  

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