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Literatura tradicional - Viagem ao país «do que nunca morre»

Temos casa nova e a tendência é convidar os amigos para um primeiro olhar. Podemos não o saber, mas a pretexto da visita há motivações muito mais profundas: há a tradição. Uma conversa com duas investigadoras do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da Universidade Nova de Lisboa mergulha-nos no terreno «do que nunca morre». O património popular, oral e literário do país serve de mote a um centro de estudos que assinala 30 anos de trabalho. Uma conversa de onde saímos a perceber porque convidamos para nossa casa?

Sara Pelicano | sexta-feira, 2 de Março de 2012

Na década de 1970 Luísa de Medeiros terminava a formação em Letras e procurava um mestrado. Deparou-se, então, com o estudo da literatura tradicional que a investigadora Ana Paula Guimarães leccionava. Com os primeiros alunos saídos do mestrado deram-se os primeiros passos para o que é hoje o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Luísa de Medeiros é agora vice-presidente do IELT e assegura que a instituição é uma «afirmação do tradicional». A ex-professora daquela faculdade defende, ainda, que a tradição nunca morre». Luísa de Medeiros questiona mesmo: «Como é que sabemos a existência da tradição?». A resposta surge prontamente a corroborar as palavras anteriores: «Porque ela nunca morre».

A ideia é partilhada pela directora do grupo de trabalho do IELT «Falas da Terra», Inês Ornellas de Castro. A tradição «é um património estudado como um processo em evolução». A colega, Luísa de Medeiros, intervém para exemplificar aquilo que ambas defendem. «Porque convidamos os amigos para a casa nova?». Podemos pensar que é o factor “apresentar” a novidade, o motivo do convite. Vai muito mais longe, como sublinha Luísa da Medeiros. Trata-se de uma tradição à qual se associam «o espantar de mau-olhado, por exemplo». A investigadora continua: «A tradição relaciona-se com a vida que nos rodeia e vai adaptando-se. No nosso quotidiano fazemos coisas que não sabemos explicar porque».

Cultura pragmática
A nossa tradição cultural é pouco relacionada com o fantástico. «Ao contrário do que se possa pensar, temos uma tradição pragmática. Está mais relacionada com o quotidiano», comenta Luísa de Medeiros. Bruxas e lobisomens são os seres de outro mundo mais comuns nas nossas memórias tradicionais. «O nosso fantástico é mais o sobrenatural compreensível, ou seja não é entendido como tal porque as pessoas acreditam mesmo nas bruxas e nos lobisomens», que em determinadas alturas, como noites de lua cheia, andam à solta pelas ruas da aldeia, comenta Inês de Ornellas e Castro.

Todo este saber reunido pelo IELT é divulgado em livros, que o instituto vai editando, suportes de multimédia como DVD e um site, o Memória Media, colóquios e encontros. «Temos trabalhos em museus, em hospitais em prisões para dar a conhecer o nosso trabalho», comenta a também professora de latim, Inês de Ornellas e Castro. No âmbito do conhecimento da literatura tradicional há também algum trabalho feito nas escolas, que reúne os mais novos, ávidos de saber, aos mais velhos, os detentores do conhecimento. Assim como, «no ensino básico há um momento ligado à literatura tradicional, especialmente contos», acrescenta Luísa de Medeiros. Contudo a ex-professora confessa que «os professores não tem formação para ensinar esta literatura e assumem como tradicional uma história infantil, o que não é verdade».

Um outro problema relacionado com a passagem deste conhecimento é a colocação por escrito de uma cultura que é oral. «A entoação da voz diz muito do que as palavras não dizem», comenta Luísa de Medeiros. Para colmatar este problema foi criado o site Memória Media, feito com vídeos onde os portadores de saber contam as suas histórias. «Temos outro projecto em curso. Um Atlas Literário de Portugal. Vai ser feito um mapa do país online, onde vai ser possível clicar numa determinada região e então ler excertos de obras de autores do século XIX e XX e conhecer o que foi dito sobre aquela terra», explica Inês de Ornellas e Castro.

O IELT actua de forma multidisciplinar, reunindo sempre equipas com saberes diversos, como de música e medicina. Existem quatro grupos de trabalho que se dedicam ao estudo da tradição das «Falas da Terra», «Praticas da terra», «Cantos, contos e que mais» e «Tradição e modernidade».

  
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