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Trajes de Portugal - Sóbrios, simples e plenos de pormenor

Simplicidade, sobriedade, alegria e reaproveitamento são características que definem o traje tradicional português. Carlos Cardoso, autor do blogue Trajes de Portugal, estuda e partilha há anos esse património português. Ao Café Portugal revela pormenores, aborda o cuidado prestado ao traje e a sua utilização no presente. O nosso interlocutor defende a eventual criação de uma central integrada de informação sobre a cultura popular portuguesa.

Sara Pelicano; fotos: Trajes de Portugal | segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

O folclore e a etnografia desde cedo cativaram Carlos Cardoso. Há 28 anos que integra um rancho folclórico «onde aprendi a gostar e a valorizar as nossas tradições» como nos confessa. Ao longo dos anos recolheu informações sobre o modo de vestir português e, em 2006, criou o blogue Trajes de Portugal. Em Trajes de Portugal sublinha que «este não é um trabalho exaustivo, nem cientifico» procurando tão só «ser um registo escrito e visual desses trajes e da razão da sua existência, inserindo-os na região de origem e no seu meio ambiente natural, para que na memória futura estes não se percam».

Ao Café Portugal acrescenta: «O blogue Trajes de Portugal é apenas um contributo para mostrar que a nossa riqueza cultural não reside apenas em Camões, Pessoa, Malhoa ou Manuel de Oliveira, mas também e sobretudo no povo e na sua forma simples de ser».

Na conversa com Carlos Cardoso há uma frase que se destaca: «Éramos pobres, mas alegres! Hoje temos tudo, mas um semblante carregado». Começamos, aqui, a viagem pelos trajes nacionais, trazendo à memória essa alegria, apesar da pobreza.

«Os trajes do povo dos finais do século XIX, inicio do século XX, (o período normalmente retratado nos trajes tradicionais) definem-se sobretudo pela sua simplicidade e sobriedade, mas também pela enorme riqueza estética», conta Carlos Cardoso.

A mulher desempenhava um papel importante na confecção da roupa, tendo em conta que o pronto-a-vestir era raro ou quase inexistente. Desde cedo, as raparigas aprendiam a costurar a roupa e a remendá-la.

«Não há uma definição genérica para o traje português, mas este é sem dúvida sóbrio, simples no corte e rico nos ornamentos, já que era nestes que a mulher investia para destacar a sua beleza e a ‘riqueza’ da sua casa», diz o nosso interlocutor.

Carlos Cardoso sublinha: «Muitos consideram os trajes tradicionais portugueses tristes e pobres, mas esses apenas olham, mas não vêem. Acham que bonitos são os trajes do Minho, e são-no, mas não vêem o esmero do corte da blusa da mulher algarvia ou o piquete aplicado num singelo avental da mulher alentejana, ou ainda, o garbo com que estas gostam de ver os seus homens apresentar-se em dia de mercado de camisa imaculadamente branca e com o relógio guardado numa bolsa de renda colorida com cordões e borlas».

Os tempos que se viviam era de dificuldade e, mesmo os mais ricos tinham cuidados de poupança. Deste modo, o tecido de uma camisa de adulto era, por exemplo, reaproveitado para uma camisa de dormir infantil.

Nos pormenores, a riqueza
O corte do vestuário era simples e sem grandes engenhos. As mulheres revelavam os seus dotes de costureiras nos ornamentos e pormenores. Carlos Cardoso explica: «a algibeira do traje feminino, sendo famosa a minhota, era utilizada de Norte a Sul do país, contrariamente ao que se vê por aí agora não estava à vista. Ela era utilizada à cintura, por debaixo da saia e o acesso era feito pela abertura da saia».

O estudioso dos trajes continua a revelar alguns pormenores que se mantém nos dias de hoje muito graças aos ranchos folclóricos. «Outra das peças que fala é muito interessante, o avental. Este é o símbolo da mulher e da sua actividade, mas também da sua vaidade. Assume-se genericamente ser uma peça de resguardo da saia, no entanto, no Alentejo, o avental era atado de forma a não sujar-se durante trabalho, findo este, o avental era então desenrolado e compunha a mulher à medida que ela atravessava a vila de regresso a casa, de forma a que esta parecesse sempre asseada. Também nesta região e no Ribatejo, as raparigas tinham aventais ricamente bordados pelas próprias com que se faziam desfilar nos dias de festa, autenticas montras dos seus prendados dotes femininos de moças casadoiras».

Semelhanças visíveis além fronteiras
As cores e os tecidos utilizados são um traço comum do traje português que regista de Norte a Sul do país. O preto é solene e aplicado nos trajes domingueiros e de festa, o cinza do cotim, o castanho do burel para os trajos de trabalho, o branco do linho e alguns estampados de algodão, como o riscado, aplicados em camisas e saias, aventais são elementos visíveis nas diferentes regiões.

Também nas localidades junto à fronteira se podem denotar proximidades entre a indumentária portuguesa e espanhola. «Existem de facto algumas semelhanças pontuais influenciadas, quer pela proximidade fronteiriça, quer pelo contacto com culturas que influenciaram a nossa história. As regiões raianas não possuíam propriamente uma fronteira cultural, muitas povoações portuguesas tinham laços culturais e familiares com povoações espanholas vizinhas e naturalmente, que os seus trajes não podiam ser muito diferenciados. Os ricos xailes bordados da região da Beira Baixa ou de Niza, têm correspondentes, igualmente belos, nas regiões da Estremadura e Andaluzia espanholas», diz Carlos Cardoso.

O autor do blogue dá ainda outros exemplos: «a utilização de biucos, capelos e mantilhas, sob os quais as mulheres resguardavam a sua beleza, que terá surgido em Itália, era utilizado em quase todo o sul da Europa no século XIX, tendo permanecido em Portugal até à primeira metade do século XX e, em Espanha, ainda se usa a mantilha, sobretudo na Andaluzia. Um outro exemplo, será a capucha usada nas regiões serranas, que poderá ser uma reminiscência da ocupação muçulmana da península».

Traje, património ao abandono?
 «Considero que o património popular é muito mal tratado e pouco valorizado, a não ser se for para vender aos turistas ou para promover uma imagem institucional, porque na prática é pouco o que se faz».  

Relativamente ao Museu do Traje e da Moda, Carlos Cardoso comenta: «tem promovido algumas exposições sobre o traje tradicional português e editado alguns livros sobre o assunto. O problema é que a sua abrangência é muito grande e como tal, não se pode dedicar exclusivamente ao traje regional português».

E sublinha a sua opinião: «o Museu de Arte Popular é o local próprio para expor e estudar os trajes tradicionais portugueses integrados no contexto cultural e socioeconómico da sua região de origem. O ideal era a construção/criação de um museu que congregasse a etnografia portuguesa nas suas várias vertentes, ou seja, uma central integrada de informação sobre a cultura popular portuguesa».

Enquanto os museus tentam encontrar um rumo na preservação e promoção do traje nacional, os ranchos folclóricos tentam manter vivo este património cultural. «Se ainda existe memória dos trajes populares portugueses muito se deve aos ranchos folclóricos e, naturalmente, a alguns investigadores. São os ranchos que os mantêm vivos, que os conservam, alguns possuem colecções impressionantes e sobretudo, possuem o conhecimento da sua história, características e modo de usar», defende.

Na opinião do nosso entrevistado o folclore deve ser encarado como um elo que liga o passado ao futuro.

Do passado ao presente
A ligação passado presente parece fazer também na utilização de tradições ligadas à moda actual. Um dos exemplos visíveis é a aplicação dos bordados dos lenços dos namorados, característicos do Minho, em camisas de corte moderno, vestidos, gravatas e mesmo cerâmica. Sobre este trazer ao tempo presente o pretérito, Carlos Cardoso comenta que «há algumas peças ainda hoje muito utilizadas. Por exemplo, na equitação tradicional portuguesa e na Equitação de Trabalho (uma modalidade desportiva que pretende recriar a utilização do cavalo nas tarefas agrícolas) encontraram no trajo do lavrador do Ribatejo a sua imagem de marca e é vê-los em qualquer feira devidamente trajados com garbo e bom gosto».

Nos últimos tempos, começa também a ser comum ver na cidade sobretudos característicos do mundo rural como o capote e a samarra.



  
Comentários Comentários (2)
segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012 | Marluce Trigo
Trajes de Portugal
Parabéns pela riqueza das informações.
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